P a i x ã o    d e    C r i s t o


Estava anoitecendo, as primeiras estrelas já se punham no firmamento. Acreditávamos que o dia estava findando por ali. Então fomos surpreendidos pelo convite que Jesus nos fez de o acompanharmos até o Getsêmani, um jardim situado perto de Jerusalém, ao pé do Monte das Oliveiras.
Durante o caminho, nenhuma palavra foi trocada, certamente em função do cansaço que nos acompanhava por causa da jornada extenuante que estávamos vivendo naquela semana. Contudo, observei que o rosto de Jesus não refletia somente cansaço, mas também angústia.
       Quando chegamos ao Getsêmani, pediu que ficássemos ali esperando enquanto ele fosse orar. Antes, porém, chamou Tiago, João e a mim, Pedro, para que o acompanhássemos. Então senti que seus passos estavam fracos, sua voz trêmula. Como num soluço ele nos confidenciou: “A minha alma está profundamente triste. Até a morte fiquem aqui e vigiem”.
 Ele demonstrou estar tomado de pavor e de angústia, avançou alguns passos e prostrou-se em terra, orando para que, se possível, lhe fosse poupada aquela hora. Dizia “Aba”, que, em aramaico, quer dizer “pai” e é uma expressão que denuncia uma imensa intimidade. Jesus continuou orando: “Pai, se possível, passa de mim este cálice. Contudo, não seja feito o que eu quero, mas sim, o que tu queres.
Num sobressalto, fomos surpreendidos por Jesus, pois havíamos adormecido e não vigiado conforme ele nos pedira. Assim aconteceu durante três vezes. Na última vez em que Ele precisou nos acordar, perguntou: “Como vocês conseguem dormir e descansar se estava chegando a hora? O Filho do Homem está sendo entregue”. Então, com toda força que lhe restava, gritou: “Vamos”. Contudo, já era tarde, pois enquanto Ele falava, um grupo de pessoas, representantes dos sacerdotes, escribas e soldados munidos de espadas e porretes se aproximou. Vimos que uma pessoa no meio dos soldados identificou Jesus e eles prenderam-no. Ele foi julgado e condenado à morte na cruz.
             Nós estávamos tomados pelo medo e fugimos. Alguns de nós seguiram o grupo à distância, mas não manifestamos nenhuma reação.  Pelo contrário, ainda o negamos e o traímos. Não conseguimos perceber toda a solidão, o medo da morte, a angústia e o seu sofrimento que personificavam toda sua paixão pelos seres humanos, por seu Pai, por todos os que o estavam condenando. Através desta paixão Jesus revela não só todo o seu lado humano, como também todo o seu lado divino, pois, ao contrário de nós, que fugimos e não o amparamos, Ele se entregou de forma total àquele momento. Com isso, Ele permite que a paixão se transforme em amor que não pede, exige, culpa, seja egoísta, mas sim num amor que se doa, que ampara, que cuida, que ri e que chora.
Se não percebermos este ato como uma manifestação de amor, de resgate, da possibilidade da vida humana se manifestar, lograríamos não entender mais a nossa condição básica de ser humano.  Foi-nos devolvida a capacidade de amar, de cuidar e de ser cuidado. A paixão de Cristo é a possibilidade de amar de forma incondicional e a confirmação de que Deus ainda acredita nos seres humanos. E a nós é pedido tão pouco: celebrar a vida, possibilitar que ela se manifeste plenamente, amar e cuidar.
Clóvis Mauro Glänzel   -   Colégio Pastor Dohms – Porto Alegre